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Bacia de Santos

Dia mundial dos oceanos: monitoramento de baleias e golfinhos na região do Pré-sal gera informações inéditas sobre a gigante desconhecida baleia-sei


No Dia Mundial dos Oceanos, 8 de junho, é importante celebrar as conquistas e avanços no conhecimento e preservação de biodiversidade marinha. Um bom exemplo são os resultados e dados inéditos obtidos no monitoramento de baleias e golfinhos (cetáceos) na costa brasileira realizado pela Petrobras na Bacia de Santos, usando tecnologias de ponta e múltiplas abordagens de pesquisa. A Bacia de Santos compreende desde Florianópolis/SC até Cabo Frio/RJ, se estendendo até o limite das 200 milhas náuticas, o que equivale a uma área do tamanho da Alemanha.

Destaca-se o conhecimento gerado sobre um dos três maiores cetáceos existentes no mundo, a baleia-sei. A espécie migra para regiões oceânicas do sudeste do Brasil para reprodução e até então permanecia praticamente incógnita para os pesquisadores brasileiros.

O Projeto de Monitoramento de Cetáceos na Bacia de Santos (PMC-BS) é uma condicionante ambiental definida pelo IBAMA para o Licenciamento Ambiental da produção de petróleo e gás natural no Pré-sal pela Petrobras. O objetivo é conhecer a ecologia de baleias e golfinhos para avaliar possíveis impactos das atividades de exploração e produção de petróleo e gás nestes mamíferos marinhos.

O Dia Mundial dos Oceanos é celebrado anualmente em 8 de junho e pretende lembrar a importância dos oceanos para a vida, enquanto “pulmões do planeta” e emissores de grande parte do oxigênio que respiramos. A data foi adotada na Assembleia Geral das Nações Unidas em dezembro de 2018. O tema para 2020 é “Inovação para um oceano sustentável”.

Executado pela empresa catarinense Socioambiental Consultores Associados desde 2015, o monitoramento é realizado semestralmente por meio de campanhas embarcadas e sobrevoos. Este ano o projeto completa cinco anos de atividades de pesquisa, somando mais de três voltas ao mundo de esforço amostral e mais de 500 dias de trabalho em campo. Segundo o biólogo José Olimpio, coordenador do projeto, este é um esforço de pesquisa focada em baleias e golfinhos sem precedentes na costa brasileira, considerando que estes ambientes oceânicos são uma das regiões menos conhecidas e mais inexploradas da Terra. Ao mesmo tempo, estas regiões mais profundas possuem a maior diversidade de baleias e golfinhos da Terra.

Os resultados são impressionantes. Pelo menos 27 espécies de cetáceos já foram registradas na região, que inclui mais de 70% da riqueza de espécies de baleias e golfinhos da costa brasileira. Dentre os registros, são reportadas as três maiores espécies de baleia, as quais encontram-se ameaçadas de extinção: a baleia-azul, baleia-fin e baleia-sei. Dentre as três “pesos-pesadas”, chegando a 20 metros de comprimento, a baleia-sei chama atenção pela grande quantidade de registros na Bacia de Santos e pela riqueza das informações geradas pelo projeto.

As baleias-sei migram anualmente entre áreas de alimentação, próximas da Antártica, e áreas de reprodução, em regiões tropicais. Dentre os registros realizado na Bacia de Santos, principalmente entre julho a setembro, foram observadas agregações de até 30 baleias, apesar dos grupos da espécie serem geralmente pequenos. Segundo o coordenador técnico do projeto, o biólogo Leonardo Wedekin, estas grandes agregações eram completamente inesperadas e a julgar pelo comportamento observado, sugere-se que a além da reprodução, a baleia-sei também se alimenta em águas brasileiras. Isto também explica porque a espécie se concentra nas regiões produtivas do talude, na quebra da plataforma continental.

Dezenas de indivíduos da espécie foram identificados individualmente pelo projeto por meio do padrão de marcas naturais nas nadadeiras dorsais (também conhecida popularmente como aleta dorsal ou barbatana), usando uma técnica chamada de foto-identificação. Com base na comparação de catálogos de indivíduos de diferentes instituições internacionais, foi possível identificar um animal que se deslocou da Bacia de Santos até as Ilhas Malvinas (veja o mapa) em um período de seis meses. Pouco se conhecia sobre os destinos migratórios e áreas de alimentação das baleias que frequentam o Brasil. Foi o primeiro movimento migratório identificado para a baleia-sei no Oceano Atlântico Sul. O estudo foi publicado em 2020 na revista Marine Mammal Science, que é a principal revista internacional especializada em mamíferos marinhos e foi realizado em parceria do PMC-BS com pesquisadores da organização não-governamental Falklands Conservation.

Fonte do mapa: Weir, C.; Oms, G.; Baracho-Neto, C.; Wedekin, L.L.; Daura-Jorge, F.G. In press. Migratory movement of a sei whale (Balaenoptera boorealis) between Brazil and the Falkland Islands (Malvinas). Marine Mammal Science. DOI: 10.1111/mms.12687

Mas foi a tecnologia usada no PMC-BS que permitiu “pegar carona” nestes animais para um novo olhar sobre a biologia da espécie. Em cinco anos, 14 baleias foram marcadas com transmissores via satélite que permitem monitorar os movimentos e o comportamento de mergulho desta baleia. O corpo em forma de torpedo possibilita que a espécie atinja uma grande velocidade de natação, tornando difícil acompanhá-las em campo. Portanto, a implantação deste tipo de transmissor nos animais é essencial para coletar determinadas informações. Foi possível observar que a baleia-sei geralmente permanece bastante próxima da superfície, o que a torna mais vulnerável a atropelamentos de embarcações, segundo o pesquisador e biólogo Clarêncio Baracho.

Outro tipo de transmissor usado no projeto funciona como uma rêmora, prendendo-se na baleia por meio de quatro ventosas. Estes tags digitais fazem medições detalhadas do movimento em três dimensões, incluindo os eixos lateral, longitudinal e vertical, além de gravar os sons emitidos pelo animal. Em uma das ocasiões que uma baleia-sei foi marcada com este tipo de transmissor, que pode permanecer preso no animal por diversas horas, foram coletados dados valiosos sobre as vocalizações da espécie. Recentemente, um novo tipo de transmissor implantado no dorso de um animal em águas oceânicas da Bacia de Santos coletou imagens inéditas sob a perspectiva do animal. Dentre outros comportamentos, nos vídeos é possível observar interações entre indivíduos da espécie. Esta foi a primeira vez que uma baleia-sei foi marcada com este tipo de transmissor no mundo.

Veja no vídeo abaixo:

A baleia-sei foi caçada em águas brasileiras e principalmente na Antártica, quase levando a espécie à extinção. Até 1979, quando a caça cessou, foram capturados mais de 110 mil indivíduos no Hemisfério Sul. Seguiu-se décadas de poucas avistagens, especialmente em águas brasileiras, cujos habitats oceânicos da espécie são muito pouco amostrados. Os esforços de pesquisa promovidos pelo PMC-BS/Petrobras usando tecnologia de ponta e o crescimento das populações da baleia-sei após o fim da caça comercial são os dois fatores que permitiram que estas importantes informações fossem produzidas, lançando luz sobre a biologia desse animal em águas brasileiras.

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